quarta-feira, 24 de junho de 2009

Carta aos Pais

Rubem Alves

Também sou pai e, portanto, compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida é dura, e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação.

Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. O seu nariz torcido disse o seguinte: “Não gostamos. Não deveria ser assim!”. O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar... digamos... estético. Para complicar, há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa para que elas não fiquem para trás. E isso, evidentemente, trará prejuízos para nossos filhos e nossas filhas, normais, bonitos, inteligentes. É preciso ser realista: a escola é uma maratona para se passar no vestibular. É para isso que elas existem. Quem fica para trás não entra... O certo mesmo seria ter escolas especializadas, separadas, onde os deficientes aprenderiam o que podem aprender, sem atrapalhar os outros.

Se é assim que vocês pensam, eu lhes digo: tratem de mudar sua maneira de pensar rapidamente, porque, caso contrário, vocês irão colher frutos muito amargos no futuro. Porque, quer vocês queiram quer não, o tempo se encarregará de fazê-los deficientes.

É possível que, na sua casa, num lugar de destaque, em meio às peças de decoração, esteja um exemplar das Escrituras Sagradas. Via de regra, a Bíblia está lá por superstição. As pessoas acreditam que Deus vai proteger. Se assim fosse, melhor que seguro de vida seria levar uma Bíblia sempre no bolso. Não sei se vocês a lêem. Deveriam. E sugiro um poema sombrio, triste e verdadeiro do livro de Eclesiastes. O autor, já velho, aconselha os moços a pensarem na velhice:

Lembra-te do Criador na tua mocidade, antes que cheguem os dias das dores e se aproximem os anos dos quais dirás: “Não tenho mais alegrias...” Antes que se escureça a luz do sol, da lua e das estrelas e voltem as nuvens depois da chuva... Antes que os guardas da casa comecem a tremer e os homens fortes a ficar curvados... Antes que as mós sejam poucas e parem de moer... Antes que a escuridão envolva os que olham pelas janelas [...]. Antes que as pessoas se levantem com o canto dos pássaros... Antes que cessem todas as canções... Então se terá medo das alturas e se terá medo de andar nos caminhos planos... Quando a amendoeira florescer com suas flores brancas, quando um simples gafanhoto ficar pesado e as alcaparras não tiverem mais gosto [...]. Antes que se rompa o fio de prata e se despedace a taça de ouro e se quebre o cântaro junto à fonte e se parta a roldana do poço e o pó volte à terra... Brumas, brumas, tudo são brumas... (Eclesiastes 12:1-8).

Os semitas eram poetas. Escreviam por meio de metáforas. Metáfora é uma palavra que sugere outra. Tudo o que está escrito nesse poema se refere a vocês, a mim, a todos. “Antes que se escureça a luz do sol...” Sim, chegará o momento em que os seus olhos não verão como viam na mocidade. Os seus braços ficarão fracos e tremerão no seu corpo curvo. As mós — seus dentes — não mais moerão por serem poucas. E a cama pela manhã, tão gostosa no tempo da mocidade, ficará incômoda. Vocês se levantarão tão cedo quanto os pássaros e terão medo de andar por não verem direito o caminho. É preciso ser prudentes porque os velhos caem com facilidade por causa de suas pernas bambas e podem quebrar a cabeça do fêmur. Pode até ser que vocês venham a precisar de uma bengala. Por acaso os moinhos pararão de moer? Não, os moinhos não param de moer. Mas vocês pararão de ouvir. Vocês estarão surdos. Seu mundo ficará cada vez mais silencioso. E conversar ficará penoso. Vocês verão que todos estão rindo. Alguém disse uma coisa engraçada. Mas vocês não ouviram. Vocês rirão,não por terem achado graça, mas para que os outros não percebam que vocês estão surdos. Vocês imaginaram uma velhice gostosa. E até compraram um sítio com piscina e árvores. Ah! Que coisa boa, os netos todos reunidos no sítio do vovô, nos fins de semana! Esqueçam. Os interesses dos netos são outros. Eles não gostam de conviver com deficientes.

Eles não aprenderam a conviver com deficientes. Poderiam ter aprendido na escola, mas não aprenderam porque houve pais que protestaram contra a presença dos deficientes.
A primeira tarefa da educação é ensinar as crianças a serem elas mesmas. Isso é extremamente difícil. Álvaro de Campos diz: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”. Freqüentemente as escolas esmagam os desejos das crianças com os desejos dos outros que lhes são impostos. O programa da escola, aquela série de saberes que as professoras tentam ensinar, representa os desejos de um outro que não a criança. Talvez de um burocrata que pouco entende dos desejos das crianças. É preciso que as escolas ensinem as crianças a tomarem consciência dos seus sonhos!

A segunda tarefa da educação é ensinar a conviver. A vida é convivência com uma fantástica variedade de seres: seres humanos — velhos, adultos, crianças — , das mais variadas raças, das mais variadas culturas, das mais variadas línguas; animais; plantas; estrelas... Conviver é viver bem em meio a essa diversidade. E parte dessa diversidade são as pessoas portadoras de alguma deficiência ou diferença. Elas fazem parte do nosso mundo. Elas têm o direito de estar aqui. Elas têm o direito à felicidade. Sugiro que vocês leiam um livrinho que escrevi para crianças, faz muito tempo: Como nasceu a alegria. É sobre uma flor num jardim de flores maravilhosas que, ao desabrochar, teve uma de suas pétalas cortada por um espinho. Se o seu filho ou a sua filha não aprender a conviver com a diferença, com os portadores de deficiência, e a ser seus companheiros e amigos, garanto-lhes: eles serão pessoas empobrecidas e vazias de sentimentos nobres. Assim, de que vale passar no vestibular?

Li, numa cartilha de curso primário, a seguinte história:

Viviam juntos o pai, a mãe, um filho de cinco anos e o avô, velhinho, vista curta, mãos trêmulas.
Às refeições, por causa de suas mãos fracas e trêmulas, ele começou a deixar cair peças de porcelana em que a comida era servida. A mãe ficou muito aborrecida com isso, porque ela gostava muito do seu jogo de porcelana. Assim, discretamente, disse ao marido: “Seu pai não está mais em condições de usar pratos de porcelana. Veja quantos ele já quebrou! Isso precisa parar...”. O marido, triste com a condição do seu pai, mas, ao mesmo tempo, sem desejar contrariar a mulher, resolveu tomar uma providência que resolveria a situação. Foi a uma feira de artesanato e comprou uma gamela de madeira e talheres de bambu para substituir a porcelana. Na primeira refeição em que o avô comeu na gamela de madeira com garfo e colher de bambu, o netinho estranhou. O pai explicou, e o menino se calou. A partir desse dia, ele começou a manifestar um interesse por artesanato que não tinha antes. Passava o dia tentando fazer um buraco no meio de uma peça de madeira com um martelo e um formão. O pai, entusiasmado com a revelação da vocação artística do filho, lhe perguntou: “O que é que você está fazendo, filhinho?” O menino, sem tirar os olhos da madeira, respondeu: “Estou fazendo uma gamela para quando você ficar velho...”

Pois é isso que pode acontecer: se os seus filhos não aprenderem a conviver numa boa com crianças e adolescentes portadores de deficiências, eles não saberão conviver com vocês quando vocês ficarem deficientes. Para poupar trabalho ao seu filho ou a sua filha, sugiro que visitem uma feira de artesanato. Lá encontrarão maravilhosas peças de madeira...

ALVES, Rubem. Conversas sobre educação. Campinas: Versus, 2003. p. 11-16.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Definindo a Arteterapia

Arteterapia é o termo que designa a utilização de recursos artísticos em contextos terapêuticos; Esta é uma definição ampla, pois pressupõe que o processo do fazer artístico tem o potencial de cura quando o cliente é acompanhado pelo arteterapeuta experiente, que com ele constrói uma relação que facilita a ampliação da consciência e do auto-conhecimento, possibilitando mudanças. É um campo de interface com especificidade própria, pois não se trata de simples “fusão” de conhecimentos de arte e de psicologia. Isso significa que não basta ser psicólogo e “gostar de arte” ou ser artista arte-educador e “gostar de trabalhar com pessoas com dificuldades especiais”. A formação em arteterapia além das matérias de arte e psicologia necessárias, compreende também um corpo teórico e metodológico próprios, que abrange conhecimentos da história da arteterapia, conhecimento dos processos psicológicos gerados tanto no decorrer da atividade artística como na observação de trabalhos de arte, conhecimento das relações entre processos criativos, terapêuticos dos diferentes materiais e técnicas, conhecimento dos fundamentos teóricos e metodológicos da abordagem, vivência pessoal e prática supervisionada.

A Arteterapia é um caminho através do qual cada indivíduo pode encontrar possibilidades de expressão para, através de técnicas e materiais artísticos, processar, elaborar e redimensionar suas dificuldades na vida.


Fonte: http://www.sedes.org.br/arteterapia.htm

domingo, 21 de junho de 2009

BRINCAR

Nada melhor e mais interessante do que iniciar minhas postagens com um assunto muito divertido, tanto para crianças, quanto para adultos: o brincar. Todos brincamos, não importa a idade, a classe social, o lugar... animais brincam. A criança pequena que assume o papel da bailarina está experimentando como é adotar o papel de uma outra pessoa, logo está brincando. O adulto que rabisca está explorando o meio disponível de maneiras previamente não-descobertas, como uma repetição consciente ou inconsciente de um desenho previamente encontrado ou variações sobre um tema. Isso pode ou não ter um propósito. O importante é que esse tipo de brincar exploratório é uma preliminar do brincar real. O brincar infantil é onde a criança consegue aprender e também resolver conflitos e ansiedades. O brincar adulto parece ser uma resposta a uma demanda interna de ocupar-se mentalmente e fisicamente, enquanto alguma outra atividade bem dominada esta ocorrendo. Todos nós aprendemos - o tempo todo. É o nosso constante estado de "prontidão para brincar" que determina tudo isso. Aqui está uma grande força do brincar: os indivíduos, quer adultos quer crianças, podem brincar à sua maneira, aproveitando dessa experiência toda a aprendizagem para a qual eles estão "prontos" naquele momento.
Para ilustrar esse assunto divertido deixo as obras do grande Portinari que pintou o brincar em suas mais belas formas:


Crianças brincando - Portinari

Pipas - Portinari

Fonte: MOYLES, J. Só Brincar: O papel do brincar na educação infantil. Porto Alegre: ArtMed, 2002